Imagem capa - Quando NÃO fotografar por Rodrigo Galvão

Quando NÃO fotografar


Sombras em fachada de casa em Tremembé (SP) para exercício de fotografia contemplativa: caminhar e observar.


Terminei há pouco o último volume da série "O Fotógrafo" (aqui o vol. 1 na Estante Virtual). Um misto de narrativa em quadrinhos e fotografias do francês Didier Lefèvre, que em 1986 acompanhou por três meses uma missão da ONG Médicos Sem Fronteiras ao Afeganistão durante o período da invasão soviética. São três livros que mesclam as anotações dele com algumas imagens dos mais de 100 rolos de filmes usados ao longo da viagem.

Em determinado momento, Lefèvre diz: "montes de cenas e panoramas interessantes desfilam pelos meus olhos sem que eu me anime a fotografá-los".


Quem fotografa regularmente sabe do que se trata. Assim como o ócio criativo de Domenico de Masi, descansar olho-mente-espírito (ou coração, como preferia Cartier-Bresson em sua definição sobre o ofício) é preciso. Sem isso, costumam aparecer imagens cada vez mais desprovidas de sentido, de espírito (olha o coração aí..) -  de tesão mesmo.


Fotografar é também não fotografar. Na maior parte das vezes, é apenas deixar-se estar, mesmo (e até principalmente) sem câmera. Se for o caso de levar a câmera, valem algumas alternativas:


- Use equipamento básico. Mesmo. Tipo uma lente fixa e só. Esqueça as teleobjetivas em casa. Obrigue-se a construir a fotografia com menos.

 

- Busque motivos fora do seu hábito e da zona de conforto. Fotografa eventos sociais? No seu dia de  folga, faça fotografia de rua. Seu trabalho é com fotografia de produtos? Leve a câmera passear numa trilha. Faz apenas fotografia de modo amador/entusiasta?Arrisque um frila profissional, busque cursos de intermediários a avançados. Produza um ensaio temático.


- Tente outras ideias. Tudo agora parece mindfulness, por exemplo, mas há um bom tempo tem gente por aí praticando a fotografia contemplativa, que é sobre não pensar em técnica ou projetar resultados, mas apenas sobre VER. 


(Sobre isso, li e gosto muito do livro The Practice of Contemplative Photography, do Andy Karr e do Michael Wood.)


Enfim.


De vez em quando, não fotografe. Ou, ao menos, deixe que outras imagens o(a) encontrem.



Há dias - ou noites  - quando as imagens simplesmente surgem à nossa frente. Estar com o olhar descansado ajuda a reconhecê-las.